Gelson Luís defende o lockdowm e a necessidade de mais informações sobre a doença em Carolina

O defensor público Gelson Luís Almeida Pinto, que atua na Comarca de Carolina desde novembro de 2019, defende a necessidade de lockdown em Carolina, no final da tarde desta sexta (22), falou ao CIDADE EM AÇÃO sobre divergências com a maneira como o prefeito médico Erivelton Neves (PL) vem conduzindo as decisões de enfrentamento da covid-19. Segundo o defensor, “a gestão de uma crise dessas não é fácil e Administração do Município parece meio zonza, perdida”. Lockdown é uma expressão em inglês que significa confinamento ou fechamento total. É um dos métodos mais radicais imposto por governos para que as pessoas cumpram o período de distanciamento social.

A seguir, entrevista com o defensor público Gelson Luís:

O senhor é a favor do lockdown?

Defensor Público: Acredito que seja necessário neste momento.  O crescimento exponencial dos casos, que já somam 26, sinaliza que esse seria o caminho consentâneo. Todavia, a palavra está com o prefeito, que já sabe o posicionamento institucional da Defensoria Pública. Sou a favor do lockdown.

Comerciantes argumentam que poderão ir à falência se tiverem que fechar o comércio. O que o senhor pensa a respeito?

Defensor Público: Qual a margem de lucro de um comerciante? Quanto eles valorizam seus colaboradores? Coloque essas e outras variáveis na balança.  Não se fala em prejudicar comerciantes. Quinze dias de paralisação não levará ninguém à falência. Negócios são recuperáveis, vidas não. Agora, será que os comerciantes pensam apenas em seus umbigos? Isso é outro enredo. Qual patrão pagaria UTI para um funcionário. As pessoas estão trabalhando com medo.

O senhor acha que a influência dos empresários tem pesado contra o fechamento momentâneo do comércio?

Defensor Público: A realidade somente o prefeito poderia transmitir. Não posso soar leviano. Porém, em minha opinião existe a pressão, porque a sociedade encena jogos de interesses. O comerciante não pensa na economia como um todo, mas sim no seu lucro. O comerciante pode dizer que pensa nos funcionários, mas não pensa duas vezes para despedi-los. Então, não sejamos hipócritas.

O senhor está recebendo críticas por defender o lockdown?

Defensor Público: Até agora não. Estou preparado para passar pelo crivo popular. Haverá, sem dúvida, descontentamento de alguns. Importante é contemporizar com a consciência e lutar pelo que se acredita. Prezo pelos meus valores.

O senhor acha que o Município de Carolina está informando corretamente à população? O povo está consciente da gravidade da situação?

Defensor Público: Basta olhar para as ruas e terá sua resposta. Há aglomerações, circulação como se nada houvesse em nosso entorno. A Administração tem o dever de informar, prevenir. Acho que a política de comunicação tem sido ineficiente. Não mensuro os esforços das pessoas, falo de resultados. Cegos tropeçam, isso é fato. Se as pessoas não forem bem informadas, pisarão em areia movediça. O povo precisa saber da gravidade da situação.

A Defensoria Pública adotou alguma providência ao combate do coronavírus?

Defensor Público: Ainda em março, a pedido do prefeito, Dr. Erivelton, fiz uma preleção aos lojistas, ensejo em que defendi o isolamento horizontal, na forma de lockdown. Então, fui o primeiro a alertar sobre os riscos de uma pandemia. A Administração Municipal autorizou a reabertura do comércio. Veja-se bem, seria desproporcional manter o comércio fechado por meses e isso nunca esteve em pauta. Defendo o fechamento por quinze dias, para que possamos tratar dos doentes, conter a disseminação do vírus e realizarmos testagens.

Esclareça melhor em que sentido o lockdown seria necessário?

Defensor Público: Há vinte e seis casos confirmados. E a subnotificação? A circulação massiva das pessoas propulsiona o vírus. Há a necessidade de contê-lo, pois a transmissão é comunitária. Estamos num transatlântico e o iceberg é logo ali. Iremos aguardar o impacto com o iceberg.

A Defensoria Pública ingressou com alguma medida judicial?

Defensor Público: No afã de preservar vidas, recorremos ao Judiciário e ao próprio Município. O Judiciário indeferiu a tutela provisória pleiteada. O Município não atendeu a recomendação e sequer prestou as informações solicitadas. Agora, estamos numa cruzada para conscientizar as pessoas.

O senhor falou que o Município não prestou as informações. Como tem sido o relacionamento da Defensoria Pública com o Poder Executivo?

Defensor Público: A Defensoria exara recomendações. Por óbvio, o Poder Executivo, em razão de sua independência, não está obrigado a segui-las. Exemplo disso, recomendei o lockdown e o Município não atendeu a sugestão. Respeito a autonomia dos Poderes. A Administração Municipal tem se mostrado aberto ao diálogo, e, inclusive, já tratei com ela assuntos relevantes à coletividade. Porém, o Poder Executivo falha ao não prestar informações, porque a Defensoria Pública desfruta de poder requisitório. Não são todos os órgãos, porém, não recebi resposta dos últimos dois expedientes encaminhados à Secretaria de Saúde. Essas informações são de interesse público e exigirei o acesso para bem orientar a população carolinense.

Como o senhor avalia a gestão do Secretário Leonardo à frente da Secretaria de Saúde?

Defensor Público: Sobre isso não posso falar em nome da Instituição. Então, quem fala é o cidadão carolinense Gelson Luiz Almeida Pinto. Acho o Leonardo bem-intencionado, cordato, competente. Todavia, ninguém e perfeito. Acho que o gerenciamento da crise deixa a desejar e a Administração ainda não despertou à realidade. Você acorda com a confirmação de um caso, e, dias após, computa-se vinte e seis. Isso denota que a ação preventiva fracassou. Então, com todo o respeito, penso que a Administração Municipal deve fazer sua mea culpa e colocar as cartas na mesa, para que os carolinenses entendam o que está acontecendo.

E o que está acontecendo?

Defensor Público: Vislumbro com meus olhos mundanos que a situação está fugindo do controle. É uma locomotiva desgovernada. A gestão de uma crise dessas não é fácil e Administração do Município parece meio zonza, perdida. Você amputa o membro porque precisa fazê-lo, é questão de vida ou morte. Talvez a Administração queira transmitir que a situação está sob controle. Vejo que não está. As estatísticas revelam.

Categories: CAROLINA