Anúncio foi feito uma semana antes da publicação da primeira matéria sobre investigações

Não é verdade que o futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, demitiu o presidente do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) após a revelação de investigação de movimentações bancárias atípicas de assessores do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Tampouco é possível dizer que a migração do órgão para a pasta do ex-juiz da Lava Jato tem a ver com a apuração do caso.

Ao contrário do que afirma publicação do site Urbs Magna, o anúncio do novo chefe do órgão foi feito por Moro em 30 de novembro, cerca de uma semana antes da publicação da primeira reportagem que revelou a investigação do Coaf nas contas de assessores de políticos da Assembleia Legislativa do Rio, entre eles o filho do presidente eleito. A transferência do Ministério da Fazenda para a pasta da Justiça foi explicitada ainda antes, em 1º de novembro. Como ainda não tomou posse, Moro também não teve tempo para demitir o atual chefe do órgão, que segue no cargo.

Por distorcer informações verdadeiras, tirando as datas de contexto, a publicação, que já tem mais de 12.700 compartilhamentos no Facebook, foi marcada por Aos Fatos com o selo DISTORCIDO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).

O texto do site Urbs Magna, publicado neste sábado (15), distorce as datas de fatos reais para sugerir que Moro teria decidido pela troca de comando do Coaf para demitir “o cara que investigou a família de seu novo patrão”. A publicação também afirma falsamente que foi a investigação que motivou o ex-juiz a trazer o órgão para sua responsabilidade.

No entanto, Moro já tinha anunciado que o Coaf ficaria na sua pasta em uma entrevista coletiva do dia 30 de novembro. No mesmo dia, o ex-juiz anunciou que o chefe da área de inteligência da Receita, Roberto Leonel de Oliveira Lima,comandará o órgão, substituindo o economista Antônio Ferreira de Sousa, atual presidente.

Já a primeira reportagem sobre o caso da movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em uma conta do ex-assessor de Flávio Bolsonaro foi publicada no blog do Fausto Macedo, no Estadão, no dia 6 de dezembro, ou seja, quase uma semana após o anúncio de Moro.

Segundo o jornal, o Coaf apontou, além do valor incompatível com o patrimônio, transações envolvendo dinheiro em espécie. Flávio Bolsonaro afirmou que tem uma relação de amizade e confiança com o ex-assessor e não tem“informação de qualquer fato que desabone” sua conduta.

Ou seja, por mais que seja verdadeiro que o Coaf migrará para o Ministério da Justiça e terá novo presidente a partir de janeiro, não é possível afirmar que as mudanças estejam relacionadas com a recente investigação do órgão, como faz o Urbs Magna. Procurado nesta segunda-feira(17), o site ainda não se manifestou.

Transferência. Confirmada no final de novembro, a ideia de transferir o Coaf para o Ministério da Justiça é ainda mais antiga. A mudança foi anunciada pela primeira vez no dia 1ºde novembro, quando o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) disse que pelo menos “uma fração do Coaf” iria para a pasta da Justiça. Naquela época ainda não estava claro como isso iria ser feito.

Segundo Sérgio Moro, a transferência teria o objetivo de fortalecer o órgão: “hoje, o Coaf, lamentavelmente, sofreu com a redução do corpo funcional, por questões circunstanciais. Nós acreditamos que conseguiremos, no Ministério da Justiça, melhorar a estrutura funcional”.

Já sobre as suspeitas que recaem sobre o ex-assessor de Flávio Bolsonaro que movimentou R$ 1,2 milhão em um ano, o próprio Sérgio Moro se pronunciou no dia 10. Segundo ele, é “inapropriado” por parte do ministro comentar casos concretos, mas que “esses fatos têm que ser esclarecidos. O presidente já apresentou alguns esclarecimentos, tem outras pessoas que precisam prestar seus esclarecimentos. E os fatos, se não forem esclarecidos, tem que ser apurados”.

Por Luiz Fernando Menezes | AOS FATOS 17.12.2018

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